quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Maria e a História da Salvação


) O Lugar de Maria no Novo Testamento
1- Jesus e a Sua Família
2- Maria Como Mediação do Espírito Santo
3- Maria no Templo
4- Maria e o Mistério de Cristo
5- A Perda do Menino Jesus no Templo

b) A Presença de Maria na Igreja Nascente
1- Maria e o Resto Fiel
2- Maria e as Aparições de Jesus Ressuscitado
3- Maria e a Igreja Nascente
4- Maria e a Nova Aliança

c) Maria e a Voz Profética do Magnificat
1- O Magnificat Como Cântico Bíblico
2- O Rosto de Maria no Magnificat
3- A fidelidade de Maria
4- Maria Foi descobrindo o Plano de Deus
5- Maria e Jesus Cristo
6- A Força Interveniente do Magnificat

d) Maria no Limiar da Nova Aliança

e) Maria Teve Um Menino
1- Um Menino Bem Amado
2- O Mistério do Menino de Maria
3- Ele é o Nosso Salvador
4- Deu-nos o Poder de Sermos Filhos de Deus
5- Ele é a Árvore da Vida Eterna



a) O Lugar de Maria no Novo Testamento

1- Jesus e a Sua Família

As referências a Maria nos evangelhos de São Mateus, São Marcos e São Lucas deixam claro este princípio: A realidade de Jesus Cristo enquanto Messias é obra do Espírito Santo, não de Maria: “Enquanto ele falava, uma mulher, levantando a voz do meio da multidão, disse: “Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!” Ele, porém, retorquiu: “Felizes antes os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11, 27-28).

Jesus tinha uma consciência muito clara sobre a sua missão: Deus enviou-o para construir a Família de Deus, a qual não assenta nos laços do sangue, mas nos vínculos do Espírito Santo. Eis a razão pela qual Jesus rejeita certas afirmações que parecem opor-se a esta verdade: “Estava ele a falar à multidão, quando apareceram sua mãe e seus irmãos que, do lado de fora, procuravam falar-lhe: Disse-lhe alguém: “A tua mãe e os teus irmãos estão lá fora e querem falar-te”. Jesus respondeu ao que lhe fez a comunicação: “Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?” E indicando com a mão os discípulos, acrescentou: “Aí estão minha mãe e meus irmãos, pois todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12, 46-50).

São Lucas e São Marcos substituem a expressão “fazer a vontade do Pai” por “Escutar a Palavra de Deus e pô-la em prática” (Lc 8, 20; cf. Mc 3, 31-35). Em Nazaré, os conterrâneos de Jesus espantavam-se com a sua sabedoria e com os milagres que fazia, pois eles conheciam-no muito bem e à sua família: “Chegado o sábado, Jesus começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes enchiam-se de espanto e diziam: “De onde lhe vem tudo isto e que sabedoria é esta? Como é possível realizar tais milagres? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?” E isto chocava-os” (Mc 6, 2-4).


2- Maria Como Mediação do Espírito Santo

No relato da visita de Maria a sua prima Isabel, São Lucas apresenta Maria como mediação da obra messiânica, pois levava no seu ventre Jesus, o Messias, o qual comunicou o Espírito Santo a João Baptista. O relato tem um grande significado simbólico. Em primeiro lugar afirma que não foi João que comunicou o Espírito Santo a Jesus, mas foi Jesus que comunicou o Espírito Santo a João.

Depois aparece a figura de Maria como a grande mediação do Espírito. Na verdade, foi Maria que levou Cristo, o portador do Espírito Santo, até João Baptista. Eis o relato de São Lucas: “Por aqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para as montanhas, a uma cidade da Judeia. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Então, erguendo a voz, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? De facto, logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio” (Lc 1, 39-44).

É um texto bonito para fazer a ligação entre João Baptista e Jesus. Naturalmente que se trata do “midrash”, isto é, um texto elaborado em forma de relato histórico, mas que é apenas uma elaboração teológica. No que se refere à figura de Maria, São Lucas aprofunda toda a riqueza teológica associada a Maria, a mãe do Messias: Maria aparece neste relato como uma mulher de Fé: “Feliz de ti que acreditaste”, diz-lhe Isabel (Lc 1, 45). Tal como Abraão, Maria acreditou. Graças à sua fé, Abraão tornou-se o medianeiro das bênçãos da salvação para a Humanidade: “Disse o Senhor a Abraão: “Farei de ti um grande povo. Abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E na tua descendência todas as famílias da terra serão abençoadas” (Gn 12, 2-3).

Por ser uma mulher de Fé, Maria recebeu a missão de ser a mãe do portador das bênçãos prometidas a Abraão para toda a Humanidade. A grande bênção que o Filho de Maria traz para a Humanidade é o Espírito Santo que faz dos seres humanos membros da Família de Deus: São Paulo entendeu muito bem esta verdade fundamental e por isso escreveu: “Todos os que se deixam guiar pelo Espírito Santo são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão, mas um Espírito de adopção, graças ao qual clamais: “Abba, Papá!” (Rm 8, 14-15).

3- Maria no Templo

Os evangelhos da infância, isto é, os dois primeiros capítulos dos evangelhos de São Lucas e São Mateus, não são relatos históricos. Se os compararmos vemos como são totalmente diferentes e até contraditórios. Trata-se de um procedimento corrente no mundo bíblico chamado “midrash”.
O “midrash” é um texto com uma intenção teológica bem definida: Elaborar o retrato do personagem em causa e da missão que Deus lhe vai confiar. As maravilhas ligadas ao nascimento ou infância do personagem em causa indicam os planos que Deus tem para ele. Os evangelhos da infância são um midrash. Isto quer dizer que a sua elaboração tem a função pedagógica de apresentar de Jesus e a missão que Deus lhe vai confiar.

Vejamos o encontro com o velho Simeão: Maria foi ao templo para fazer a apresentação do seu filho ao Senhor. Nesse momento aparece um ancião chamado Simeão, homem justo e piedoso, o qual esperava a consolação de Israel. Simeão estava cheio do Espírito Santo (Lc 1, 25). Inspirado pelo Espírito Santo, toma o menino nos braços e exclama: “Agora, Senhor, tal como me disseste, deixa partir este teu servo em paz. Os meus olhos viram a salvação que ofereces a todos os povos e que é a luz que se vai revelar às nações. Ele é a glória de Israel teu povo”.

Seu pai e sua mãe estavam admirados com o que se dizia dele. Simeão abençoou-os e disse a Maria sua mãe: “Este menino será um sinal de contradição. Será causa de queda e ressurgimento de muitos em Israel. Uma espada trespassará o teu coração e assim se revelarão os pensamentos de muitos corações” (Lc 2, 29-35). Naturalmente que um texto destes foi escrito depois da vida, morte e ressurreição de Jesus.


4- Maria e o Mistério de Cristo

Este midrash, como todos os outros que aparecem na bíblia eram elaborados após a morte do personagem em causa. A anunciação do anjo a Maria faz igualmente parte do evangelho da infância de Lucas. São Lucas põe na boca do anjo uma síntese da primeira profecia messiânica da história: o oráculo do profeta Natã a David, cerca de mil anos antes de Cristo (2 Sam 7, 12-16). Esta profecia marcou toda a história bíblica, pois é a matriz da esperança messiânica em Israel.

Agora, o Anjo da Anunciação sintetiza a profecia, apresentando-a em forma de anúncio do nascimento maravilhoso do Messias esperado. Eis o que diz o evangelho de São Lucas: “Ao entrar em casa de Maria, o anjo disse-lhe: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”. Ao ouvir estas palavras, Maria perturbou-se e perguntava-se sobre o significado de tal saudação. Disse-lhe o anjo: “Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar á luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David. Reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”. Maria disse ao anjo: “Como será isso, se eu não conheço homem?” O anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é santo e será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 28-35).

O que Jesus é como Messias é obra do Espírito Santo. Para acentuar este aspecto, São Lucas põe na boca de Maria a seguinte questão: “Como será isso, visto eu não conhecer varão?” (Lc 1, 34). O grande protagonista deste mistério é o Espírito Santo. Como ternura maternal de Deus, o Espírito Santo vai optimizar o amor maternal de Maria, a fim de ela amar o Filho de Deus com um amor maternal optimizado pelo próprio Deus. Nesta passagem, Maria aparece como a grande mediação do Espírito Santo para que se concretize o mistério de Cristo. Foi o Espírito Santo que consagrou Jesus para ele realizar a sua missão, diz São Lucas mais à frente (Lc 4, 18-21).

Na verdade, Maria apenas compreendeu de modo perfeito o mistério de Cristo com o Pentecostes. Como diz o Livro dos Actos dos Apóstolos, Maria só compreendeu de modo perfeito o mistério de Cristo após a ressurreição do Senhor (cf. Act 1, 14). É muito interessante ver como o evangelho de São João, com seu simbolismo tão rico, diz que a festa das Bodas de Caná teve lugar três dias depois. Não é difícil ver aqui uma alusão à experiência pascal de Maria e dos irmãos de Jesus (Jo 2, 1-2).

No evangelho de João Maria é mencionada apenas duas vezes: nas Bodas de Caná (Jo 2, 1-12) e junto à cruz (Jo 19, 25-27). Maria não é nunca mencionada pelo seu nome. São João chama-lhe sempre a mãe de Jesus. Mesmo quando os judeus falam dos pais de Jesus, mencionam Jesus pelo seu nome, mas para Maria utilizam a designação de Mãe de Jesus: “Os judeus puseram-se, então a murmurar contra Jesus pelo facto de ele ter dito: “Eu sou o pão que desceu do Céu” e diziam: “Não é ele Jesus, o filho de José, de quem nós conhecemos o pai e a Mãe?” Como se atreve a dizer agora: “Eu desci do Céu?” (Jo 6, 41-42).

Quando Jesus a fala com Maria, este chama-lhe sempre mulher. Deste modo, Deste modo, São João pretende acentuar que Jesus, enquanto Messias, não é obra de Maria, mas sim do Espírito Santo. Eis o testemunho de João Baptista: “Eu não o conhecia, mas foi para ele se manifestar a Israel que eu vim baptizar com água. “Eu vi o Espírito Santo que descia do Céu como uma pomba e permanecia sobre ele. Eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a baptizar é que me disse: “Aquele sobre quem vires descer o Espírito e poisar sobre ele é o que baptiza com o Espírito Santo. Pois bem: eu vi e dou testemunho de que este é o filho de Deus” (Jo 1, 31-34).

Ao pôr na boca de Maria o cântico do Magnificat, Lucas entendia que uma proclamação desta força e profundidade se adequava perfeitamente à mãe de Jesus. No evangelho de Mateus Jesus convida os discípulos a aprenderem dele que é manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). Jesus tem um coração manso e humilde. Este coração de Jesus foi em grande parte pela acção maternal de Maria. De facto, os meninos judeus, no tempo de Jesus, ficavam ao cuidado exclusivo das mães até aos cinco anos de idade. É o período básico para a estruturação das linhas mestras da personalidade humana!


5- A Perda do Menino Jesus no Templo

No relato da perda do Menino Jesus no Templo, ao falar do reencontro de Jesus com os seus pais, São Lucas, como fez São João no relato das bodas de Caná, utiliza a simbologia dos três dias. Depois de muita aflição, os pais de Jesus encontram-no três dias de pois na casa do Pai.

Naturalmente que também há uma alusão à experiência pascal de Maria. Eis o relato: “Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. Quando Jesus atingiu os doze anos, subiram até lá, segundo o seu costume. Terminados esses dias, regressaram a casa e o menino ficou em Jerusalém, sem que os pais o soubessem. Pensando que ele se encontrava na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos. Não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém, à sua procura. Três dias depois encontraram-no no templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas (…). Ao vê-lo, os seus pais ficaram assombrados e sua mãe disse-lhe: “Filho, porque nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura!” Ele respondeu-lhes: “Porque me procuráveis?” Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai? Mas eles não compreenderam as palavras que Jesus lhes disse” (Lc 2, 41-49).

Nas entrelinhas deste texto do “midrash” de São Lucas está uma alusão muito significativa sobre a descoberta que Maria faz do seu Filho no momento da sua experiência pascal. A experiência pascal de Maria e dos irmãos de Jesus é afirmada de modo solene por São Paulo quando descreve em síntese as aparições do Senhor ressuscitado (1 Cor 15, 7). São Paulo nomeia Tiago em vez de Maria, mas isso deve-se ao facto de Maria ser uma mulher e as mulheres, no mundo judaico daquela época, não poderem servir como testemunha. Pôr uma mulher a testemunhar a ressurreição de Jesus, seria tirar credibilidade ao facto.

É por esta mesma razão que, no evangelho da infância de São Mateus, o anjo só fala com José. São Mateus escreve o seu evangelho a pensar nos judeus. Como a mulher não era considerada uma testemunha credível o anjo da anunciação nunca fala com Maria, mas apenas com José (Mt 1, 20; 2, 13).

Por outras palavras, no evangelho de São Lucas, o anjo da anunciação só fala com Maria. No evangelho de São Mateus, o anjo só fala com José: “Andando José a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho ao qual darás o nome de Jesus, pois ele salvará o povo dos seus pecados. Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor disse pelo profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará á luz um filho, e há chamá-lo Emanuel, que quer dizer Deus connosco” (Mt 1, 22). O anjo falou várias vezes em sonhos com José: Na fuga para o Egipto (Mt 2, 13-15). No regresso do Egipto para a terra de Judá (Mt 2, 19-21). Na mudança para Nazaré (Mt 2, 22-23). Podemos dizer que noutro contexto cultural a figura de Maria seria mais realçada.


b) A Presença de Maria na Igreja Nascente

1- Maria e o Resto Fiel

A teologia do resto fiel de Deus atravessou toda a tradição profética, desde o profeta Elias até aos últimos profetas. Devido às suas infidelidades, Israel será disperso no meio dos outros povos e ficará reduzido a um pequeno resto que se voltará para o Senhor (Dt 4,27). Com este resto Deus, que é rico em misericórdia vai renovar com a sua Aliança, fazendo deste resto o grupo dos seus eleitos (Dt 4,31).

O Profeta Isaías diz que Deus só conta com um pequeno resto que se voltará para o Senhor: “Naquele dia o resto de Israel e os sobreviventes de Jacob não farão alianças com os inimigos do Senhor, mas apoiar-se-ão com confiança no Deus forte. Ainda que o teu povo, ó Israel, fosse tão numeroso como os grãos de areia das praias do mar, apenas um pequeno resto voltará (10, 18-22).

Os judeus que regressaram do exílio de Babilónia estavam convencidos de ser eles o resto anunciado pelos profetas (Zac 3, 8-9). Face ao modo como os judeus rejeitaram Jesus Cristo, São Paulo vê nos poucos judeus que se converteram à fé, o resto anunciado pelo profeta Isaías no texto que vimos acima” (Rm 9, 19; 27-29). Ao longo da História da Salvação, Deus foi renovando a sua Aliança sempre com um pequeno resto: O núcleo familiar de Noé (Gn 6, 9). O resto de um grupo de homens que, no tempo do profeta Elias, se manteve fiel ao Senhor (1 Rs 9, 10, 18).

2- Maria e as Aparições de Jesus Ressuscitado

O Novo Testamento vê em Maria e no grupo dos discípulos o resto fiel anunciado pelos profetas. Este resto, unido a Cristo ressuscitado e animado pelo Espírito Santo é o fermento da Nova Criação realizada em Cristo ressuscitado (2 Cor 5, 17-19). A última passagem do Novo Testamento que nos fala de Maria é o relato da comunidade apostólica primordial, logo após o Pentecostes.

Depois de referir o nome dos onze discípulos, Lucas acrescenta: “E todos unidos pelos mesmos sentimentos, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e seus irmãos” (Act 1, 14). Após a Páscoa, Maria e os discípulos formavam o resto fiel reunido em nome de Jesus de Nazaré, o Messias de Deus. Segundo os Actos, o resto fiel era constituído pelos onze discípulos, pela mãe de Jesus e seus irmãos e por um grupo de cerca de cento e vinte pessoas (Act 1, 15).

Ao fazer a síntese das aparições de Jesus ressuscitado, São Paulo declara estar a repetir exactamente o que os Apóstolos lhe comunicaram, pois ele, nessa altura, ainda não fazia parte do grupo dos cristãos. Depois de mencionar a aparição do Senhor a Pedro, aos doze, e a mais de quinhentos irmãos, São Paulo fala de uma aparição a Tiago. Este Tiago não é o irmão de João, pois este estava incluído no grupo dos doze, mas sim Tiago, o irmão de Jesus que, na altura em que São Paulo escreveu o texto era o chefe da comunidade de Jerusalém.

Na Carta aos Gálatas, São Paulo fala deste Tiago, dizendo tratar-se do irmão do Senhor. Além do encontro com São Pedro, São Paulo não viu mais ninguém a não ser Tiago: “Passados três anos subi a Jerusalém para conhecer Pedro e fiquei com ele durante quinze dias. Mas não vi nenhum outro Apóstolo a não ser Tiago, o irmão do Senhor. O que vos escrevo, digo-o diante do Senhor, não estou a mentir” (Gal 1, 19).

O relato das aparições do Senhor ressuscitado Tiago é mencionado entre os que tiveram uma aparição própria (cf. 1 Cor 15, 3-9). Como se pode comprovar no relato das pessoas beneficiadas com uma aparição do Senhor não há nenhum nome de mulher. Isto revela como este texto é antigo. Ainda estamos em pleno contexto judaico, onde a mulher não podia servir de testemunha. Se na lista das pessoas que viram o Senhor ressuscitado houvesse nomes de mulher, em vez de Tiago teríamos naturalmente o nome de Maria.

Agora já podemos ler o relato das aparições, tal como os Apóstolos o transmitiram a Paulo. Eis as palavras do Apóstolo na Primeira Carta aos Coríntios: “Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as mesmas Escrituras. Apareceu a Pedro e depois aos Doze. Em seguida pareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez, a maior parte dos quais ainda vive, enquanto alguns já morreram. Depois apareceu a Tiago” (1 Cor 15, 3-7)

Este texto dá-nos a garantia de que Maria e o seu núcleo familiar mais íntimo foram beneficiados com uma aparição do Senhor ressuscitado. O evangelho de João diz de maneira muito sugestiva que Maria, após a hora de Jesus, isto é, a sua morte e ressurreição passa a fazer parte do resto fiel continuando a sua missão de mãe do Messias, mas agora como mãe da comunidade apostólica que é o Corpo de Cristo (1 Cor 12,27).

Maria foi, pois, uma mediação privilegiada do Espírito Santo, ajudando o resto fiel com o qual o Espírito Santo ia fundar a Igreja: “Junto à cruz de Jesus estavam, de pé, sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria, a mulher de Cléofas e Maria Madalena. Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que ele amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” E desde aquela hora, o discípulo acolheu-a em sua casa” (Jo 19, 25-27). Seria errado pensar que Jesus entregou Maria a João, a fim de esta não ficar só e abandonada.


3- Maria e a Igreja Nascente

Os Actos dos Apóstolo testemunham que Maria, após a Páscoa, se fazia acompanhar do seu núcleo familiar a que o Novo Testamento chama irmãos de Jesus (Act 1, 14). O texto de João, utilizando um simbolismo muito bonito, diz que Maria, após a Páscoa, continua a sua missão maternal de mediação especial do Espírito Santo no interior do resto fiel. O Novo Testamento, de modo especial o Livro dos Actos dos Apóstolos e os escritos de São Paulo vêem neste resto fiel o embrião do Novo povo de Deus.

Como sabemos, a dinâmica do amor maternal é básica para o desenvolvimento de qualquer embrião. A teologia do resto fiel vem associada à ideia de um castigo que deixará o povo de Deus reduzido a um pequeno resto. Esse dia será trágico, pois os pecadores vão ser aniquilados. Só escapará o resto fiel o qual se apoiará sobre uma Nova aliança assente, não na letra das tábuas de pedra dadas a Moisés no Monte Sinai, mas no dom do Espírito Santo.

O dia do Senhor está próximo, dizia o profeta Ezequiel. Aproxima-se o tempo: o Senhor vai derramar a sua cólera. Nesse dia o ouro e a prata não poderão salvar (Ez 7, 5-19). Os justos vão ser assinalados, a fim de escaparem à ira do Senhor, formando assim o resto fiel. Todos serão exterminados, excepto os assinalados na fronte, os quais constituem o pequeno resto que Deus vai poupar. (Ez 14, 22).

Deus vai conceder um coração e um espírito novos aos que restarem fiéis. Estes serão reconduzidos para Jerusalém onde encontrarão a felicidade, a paz e a prosperidade (Ez 11, 17-19). Os poderosos vão ser humilhados. Os simples e pobres vão ser exaltados. As coisas vão mudar, pois o humilde será exaltado e o que está no alto será humilhado (Ez 21, 30-31).

São Lucas via em Maria um membro eminente deste resto fiel. É por esta razão que ele põe na boca de Maria o hino do Magnificat composto com estas palavras do profeta Ezequiel (Lc 1, 46-56). O Novo Testamento vê a Igreja nascente como o pequeno resto, o pequeno rebanho à frente do qual o Senhor vai colocar um pastor que sairá da casa de David, como disse o profeta Ezequiel (Ez 34, 11-25).

O evangelho de São Lucas põe na boca do anjo da anunciação uma síntese destas palavras de Ezequiel: “Ele será grande e será chamado filho do Altíssimo, pois vai herdar o trono de seu pai David. Ele vai reinar para sempre sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim” (Lc 1, 32-33).

4- Maria e a Nova Aliança

Maria era um membro do povo judeu. Isto quer dizer que ela pertencia à Antiga Aliança. São Paulo reconhece que Maria, apesar de nascer como membro da Antiga Aliança teve a nobre missão de ser a ponte de passagem para a Nova Aliança. São Paulo atribui-lhe o privilégio de ser a aurora da plenitude dos tempos: “Mas quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da antiga Lei. Deste modo Deus resgatou os que se encontravam sob o domínio, a fim de receberem a adopção de filhos. E porque somos filhos, Deus enviou aos nossos corações os Espírito de seu Filho que clama: “Abba, Papá!” Deste modo já não és escravo, mas filho. E se és filho, és também herdeiro pela graça de Deus” (Gal 4, 4-7).

Apesar de ter nascido como membro da Antiga Aliança, Maria tornou-se uma figura central na emergência histórica do Povo da Nova Aliança. Nos pronunciamentos dos profetas, a teologia do resto fiel estava associada ao juízo final, também chamado o dia da ira. Nesse dia, só o resto fiel escaparia à tragédia que Deus ia enviar sobre a Humanidade. Os discípulos consideravam-se o resto que escaparia ao dia da ira como os profetas tinham anunciado. No dia do juízo, diz o evangelho de São Mateus, haverá menos rigor para Sodoma do que para os que rejeitarem a mensagem de Jesus (Mt 11, 24). O juízo universal é associado à segunda vinda de Cristo, a qual iria a acontecer muito em breve, pensavam os discípulos.

Eis o que diz São Paulo na Primeira Carta aos Tessalonicenses: “Vós sabeis perfeitamente que o dia o Senhor virá como um ladrão vem pela calada da noite (…). Vós não andais nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão” (1 Ts 5, 2-4). Maria ocupa um lugar de destaque no conjunto deste pequeno resto fiel, pois continua a sua missão de mediação privilegiada do Espírito Santo: O evangelho de São João diz que Jesus, no momento da sua morte, entrega Maria a João, a fim de ela ser a mãe do resto fiel do qual vai emergir o Povo da Nova Aliança (Jo 19, 25-27).


c) Maria e a Voz Profética do Magnificat

1- O Magnificat Como Cântico Bíblico

O Cântico do Magnificat tem a beleza e a força profética dos grandes cânticos bíblicos. Ao elaborar este grito profético em nome de Maria, São Lucas teve a intenção de colocar Maria entre os grandes personagens da História da Salvação. A confirmação desta verdade é posta por São Lucas na boca da sua prima Santa Isabel.

Por outras palavras, ao colocar na boca de Maria o canto do Magnificat, São Lucas está a querer dizer que Maria é uma mulher privilegiada no conjunto de todas as mulheres: “Então, erguendo a voz, Isabel exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? Logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio. Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor” (Lc 1, 42-45).

São Lucas inspirou-se nos grandes cantos do Antigo Testamento, especialmente no cântico de Ana, a mãe do profeta Samuel (cf. 1 Sam 2, 1-10). São Lucas, ao elaborar o canto do Magnificat tem como pano de fundo a história de Jesus e, sobretudo a experiência da sua ressurreição. Por outras palavras, o Magnificat é uma confirmação da força profética e libertadora da missão messiânica de Jesus. Além disso é a proclamação de que em Jesus Cristo se realizaram todas as profecias.

São Lucas confirma esta sua intenção no seu evangelho quando põe na boca de Jesus ressuscitado a garantia de que, em si, se realizaram toda as profecias messiânicas: “Jesus disse-lhes, então: “Ó homens lentos de espírito e faltos de inteligência, para acreditar em tudo quanto os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de passar por estas coisas para entrar na sua glória? E, começando por Moisés e seguindo por todos os profetas explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito” (Lc 24, 25-27).


2- O Rosto de Maria no Magnificat

No Magnificat, São Lucas mostra-nos Maria como uma mulher em construção como as demais. O tema central do Magnificat é o acontecimento salvador de Jesus Cristo e a fidelidade de Deus. Em Jesus de Nazaré Deus realizou não só as antigas profecias como também as promessas feitas aos patriarcas: “Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre” (Lc 1, 54-55).

São Lucas apresenta Maria como uma mulher simples, crente e fiel à vontade de Deus. Estas qualidades fizeram de Maria uma mulher com as melhores condições para ser a mãe do Messias. Com seu jeito maternal de amar, O Espírito Santo prepara o coração maternal de Maria, a fim de ela amar o Filho de Deus com um jeito divino. Por outras palavras, o Espírito Santo optimiza o amor maternal de Maria, a fim de esta amar Jesus Cristo com o jeito do próprio Deus.

Maria foi eleita pelo Espírito Santo para ser colaboradora de Deus na concepção, nascimento e acompanhamento maternal do Messias salvador. São Lucas é muito realista no modo como apresenta Maria. A mãe de Jesus não é apresentada como se fosse uma deusa. Maria teve de crescer na compreensão do mistério de Jesus Cristo. A própria Maria se chama a humilde serva do Senhor.

3- A fidelidade de Maria

Ao dar-se conta da grandeza da missão que Deus lhe confiava, Maria sentiu-se amedrontada. Mas depois apercebeu-se de que Deus lhe confiou esta missão, não por que ela seja uma pessoa importante, mas porque o Senhor se dignou olhar para a humilde condição da sua serva: “Deus pôs os olhos na humildade da sua serva” (Lc 1, 48). Ao mesmo tempo, São Lucas apresenta Maria como uma mulher sensata, contemplativa e modesta. Maria medita em tudo o que vai descobrindo, meditando-o no seu coração e não faz alarde dos privilégios que Deus lhe concede. Através da meditação, ela vai compreendendo o mistério que envolve o seu filho meditando e contemplando as maravilhas de Deus.

Maria tem consciência de que a missão que Deus lhe pede tem como centro o seu Filho. Segundo São Lucas, Maria compreende que as prerrogativas que Deus lhe concede, estão em função da missão messiânica do seu Filho. Eis a razão pela qual ela só foi descobrindo de modo gradual o mistério que habitava o coração do seu Filho. Isto quer dizer que o plano de Deus não era evidente para Maria logo à partida.


4- Maria Foi descobrindo o Plano de Deus

Na verdade, a compreensão plena do mistério de Cristo só foi claro para Maria após a experiência pascal. Perante a grandeza dos planos de Deus, Maria limitava-se a guardar e meditar todas essas maravilhas no seu coração diz São Lucas: “Jesus respondeu-lhes: “por que me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?” Mas os seus pais não compreenderam as palavras que ele lhes disse. Depois desceu com eles, voltando para Nazaré, e era-lhes submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração” (Lc 2, 49-51; cf. 2,19).

A beleza, a inspiração e a garra profética do Magnificat é indiscutível. É profundamente significativo o facto de São Lucas o elaborar para pôr na boca de Maria. Procedendo assim, ele sublinha não só a importância do papel maternal de Maria, mas também as suas qualidades para ser a grande mediação do Espírito Santo para o acontecimento messiânico.

Zacarias, o pai de João Baptista, não teve fé. Por isso ficou mudo até ao nascimento de seu filho: “Eu sou Gabriel, aquele que está diante de Deus e fui enviado para te falar e te anunciar esta Boa Nova. Vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto acontecer, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão na altura própria” (Lc 1, 19-20).

Maria, pelo contrário, acredita, apesar de não compreender o alcance do que lhe está a ser pedido. São Lucas sublinha expressamente que Maria, ao contrário de Zacarias, é possuidora de uma grande fé: “Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor” (Lc 1, 45).

Além de crente, sugere São Lucas, Maria é dócil ao plano que Deus sonhou para si: “Maria disse, então: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Temos de reconhecer que o Magnificat é um canto messiânico. Tem a força profética das palavras, atitudes e denúncias de Jesus. Na verdade, a pregação e as atitudes públicas de Jesus, são a expressão de uma vida marcadamente profética.


5- Maria e Jesus Cristo

Colocando o Magnificat na boca de Maria, São Lucas quis atribuir a Maria uma ligação privilegiada à missão libertadora do Messias. Não é por acaso que o canto de Maria tem uma referência muito clara à obra libertadora de Jesus: “Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias (Lc 1, 51-53).

Podemos dizer que a força profética destas palavras é uma síntese do jeito de viver de Jesus. Esta relação aparece muito clara no evangelho de São Lucas, logo no início da vida pública de Jesus: “Jesus veio a Nazaré onde se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres. Enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista. Consagrou-me para mandar em liberdade os oprimidos e a proclamar um ano favorável da parte do Senhor”. Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Começou então a dizer-lhes: “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4, 16-21).

São Lucas interpreta este texto de Isaías como um anúncio antecipado da acção profética e libertadora da missão de Jesus. Os dois textos são exclusivos de São Lucas, o que demonstra bem a sua intenção de sublinhar a garra profética das palavras e das acções de Jesus. É neste contexto que São Lucas evidente o Magnificat.

Nesta mesma linha do Magnificat está o cântico profético de Zacarias, ao qual damos o nome de “Benedictus” (cf. Lc 1, 67-79). Os dois cânticos surgem como uma exultação no Espírito Santo. Este tema da exultação no Espírito Santo é muito querido para São Lucas. O Espírito Santo faz exultar os justos que formam o resto fiel, isto é, o conjunto de pessoas que vivem na expectativa da vinda do Messias. Para São Lucas a abundância do Espírito é o sinal claro de que chegaram os tempos messiânicos, tal como os profetas tinham previsto. Eis o que São Lucas diz no Livro dos Actos dos Apóstolos: “Mas tudo isto é a realização do que disse o profeta Joel: “Nos últimos dias, diz o Senhor, derramarei o meu Espírito sobre toda a criatura” (Act 2, 16-17; cf. Jl 3,1).

O Magnificat de Maria, tal como o Benedictus de Zacarias são exultações no Espírito Santo (cf. Lc 1, 46-56; 1, 67-79). Nesta mesma linha está o cântico de Simeão, o ancião que tomou nos braços o Menino Jesus quando este foi apresentado no templo. Este cântico de Simeão é muito sugestivo, pois aparece como obra explícita do Espírito Santo: “Ora vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Era justo e esperava a consolação de Israel (…). O Espírito Santo estava em Simeão e tinha-lhe revelado que não morreria antes de ter visto o Messias do Senhor. Impelido pelo Espírito Santo veio ao templo no momento em que os pais do Menino Jesus o trouxeram para o apresentar ao Senhor. Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus dizendo: “Agora, Senhor, tal como disseste, deixa partir em paz o teus servo, pois os meus olhos acabam de ver a Salvação que ofereceste a todos os povos: Luz para se revelar às nações e glória de Israel teu povo” (Lc 2, 25-32).

Estes cânticos têm em comum o reconhecimento de que Jesus é Messias anunciado pelos profetas e prometido aos patriarcas. Significam também que o conhecimento de Jesus como Messias é um dom do Espírito Santo.

6- A Força Interveniente do Magnificat

O Cântico do Magnificat não é um texto adocicado ou neutro no que se refere à denúncia do mal. Podemos dizer que o Magnificat enfrenta e denuncia as injustiças com a mesma frontalidade com que Jesus as defrontava. Maria aparece no Magnificat como uma excelente discípula de Jesus. Isto torna-se mais claro se tivermos presente que São Lucas escreveu este cântico após a experiência da ressurreição de Jesus.

No cântico do Magnificat, Maria denuncia as injustiças dizendo que uma sociedade onde um grupo de gente privilegiada explora uma multidão de gente privada de poder, de riqueza e direitos humanos não corresponde à vontade de Deus. Depois acrescenta que esta ordem será alterada, pois a misericórdia de Deus vai manifestar-se em favor dos mais pobres: “A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias” (Lc 1, 50-53).

Para São Lucas, Maria, Zacarias e Simeão são vozes que sintetizam a fé e a expectativa do resto fiel de Israel. Foi se tratar dos justos fiéis à vontade de Deus, o Espírito Santo revelou-lhes que Jesus veio inaugurar o Reino de Deus. O realce especial dedicado a Maria tem a ver com a sua ligação especial ao Messias e ao seu plano salvador. O que Jesus é como Messias é obra do Espírito Santo, não de Maria. Mas Maria é a grande mediação do Espírito Santo, a fim de acontecer o projecto salvador de Deus.

O Magnificat de Maria, o Benedictus de Zacarias, e o cântico de Simeão são textos cristológicos que proclamam Jesus como o Messias anunciado pelos profetas. Ao mesmo tempo proclamam a fidelidade de Deus que cumpriu as suas promessas.


d) Maria No Limiar da Nova Aliança

Em Maria, o povo Bíblico entra no limiar da Nova Aliança. O evangelho de São João associa à Hora de Jesus a transição de Maria para a dinâmica da Nova Aliança: “Junto à cruz de Jesus estavam de pé a sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria, a mulher de Cleophas, e Maria Madalena. Então Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” E, desde aquela hora, acolheu-a como mãe” (Jo 19, 25-27).

A Hora em são João significa a ressurreição e glorificação de Jesus. Os Actos dos Apóstolos testemunham a presença de Maria na comunidade primitiva: “E todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus e seus irmãos” (Act 1, 14).

A transição de Maria para a Nova Aliança, portanto, deve ser associada à experiência pascal. A pregação primitiva sobre a experiência pascal dos discípulos, diz que Tiago, o mais velho dos chamados irmãos de Jesus, fez uma experiência pascal própria, tal como aconteceu com outros grupos: “Transmiti-vos em primeiro lugar, o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Depois apareceu a Pedro e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez, a maior parte dos quais ainda vive, apesar de alguns já terem morrido. Depois apareceu a Tiago” (1 Cor 15, 3-7).

Este Tiago é, como vimos, o mais velho dos chamados irmãos de Jesus que, após a Páscoa faziam parte da comunidade apostólica. Se olharmos com atenção nesta lista das aparições não aparece nenhum nome de Mulher. Isto quer dizer que esta pregação está profundamente marcada por uma forte carga judaica. Se assim não fosse não seria o nome de Tiago mas o de Maria que apareceria.

Isto significa que o grupo familiar de Maria teve uma aparição pascal própria. É isto, aliás que testemunha o texto mais tardio dos Actos dos Apóstolos que testemunha a presença de Maria e dos irmãos do Senhor: “Entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e com seus irmãos” (Act 1, 14). Segundo o evangelho de João, Maria transita para a Nova Aliança mantendo a sua missão maternal: “Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe”. E, desde aquela hora, acolheu-a como mãe” (Jo 19, 27).

Para compreendermos o significado enorme desta transição de Maria para a Nova Aliança, basta por em paralelo a figura de Maria com João Baptista. João foi uma figura decisiva para ajudar o povo a compreender a chegada do Messias: “João disse a todos: “Eu baptizo-vos em água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia das sandálias. Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3, 16).

Jesus dá testemunho em favor de João, pondo-o acima de qualquer outro personagem da Antiga aliança. No entanto Jesus diz claramente que ele não transitou para a Nova Aliança: “Depois Jesus começou a falar às multidões a respeito de João: “Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido de roupas luxuosas? Os que usam roupas luxuosas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes, então, ver? Um profeta? Sim, eu vo-lo digo, e mais que profeta. Ele é aquele de quem está escrito: “Eis que envio o meu mensageiro diante de ti, a fim de te preparar o caminho. Em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista. No entanto, o mais pequeno no Reino dos Céus é maior do que ele” (Mt 11, 7-11).

O Reino dos Céus significa a Nova Aliança. João não transitou para a Nova aliança. Eis a razão pela qual o menos no Reino dos Céus é maior do que ele. Numa das suas aparições após a Páscoa, o Senhor ressuscitado disse aos discípulos: “João baptizava com água. Vós, porém, sereis baptizados com o Espírito Santo dentro de poucos dias” (Act 1, 5) Podemos dizer que João atingiu a cúpula do Povo da Antiga Aliança, mas não fez a passagem para a Nova.


e) Maria Teve Um Menino

1- Um Menino Bem Amado

Maria Teve Um Menino! A Notícia circulou veloz entre as gentes de Nazaré. As amigas de Maria comunicavam o acontecimento com a força de uma exultação que vem do fundo do coração. Faziam-no com um contentamento parecido à alegria dos que anunciam o Evangelho. O Menino de Maria nasceu e cresceu no meio de muito amor. Era um Menino encantador como acontece com todas as crianças.
O seu olhar transparente cativava a ternura dos adultos. Era uma criança traquina e encantadora, como as outras crianças! Chorava, tinha fome de felicidade, e alimentava sonhos e esperanças. Como acontece com os meninos bem-amados, o Menino de Maria crescia feliz. Pelo facto de ter recebido muita ternura, o menino de Maria tinha uma capacidade enorme para ser dom.

2- O Mistério do Menino de Maria

Em Nazaré, as pessoas diziam que o filho de Maria e José era um menino encantador. Mas ninguém podia imaginar o alcance salvador daquele Menino a crescer. Cativava os que o tomavam ao colo. O seu sorriso transparente parecia transmitir algo que prolongava e optimizava o sorriso das demais crianças.

Mas ninguém suspeitava que aquele Menino havia de chamar pai ao próprio Deus! No seu coração aconteceu o encontro definitivo do Homem com Deus: o Divino enxertou-se no Humano, a fim de este ser divinizado. Por outras palavras, no coração deste menino aconteceu o mistério da Encarnação: O melhor de Deus encontrou-se com o melhor da Homem. Apesar de ninguém suspeitar, o Menino de Maria era o Salvador da Humanidade.


3- Ele é o Nosso Salvador

No coração deste menino, a sua interioridade humana interagia de modo directo com a interioridade divina da segunda pessoa da Santíssima Trindade. Com seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo animava esta interacção humano-divina, tornando-a fecunda. As pessoas que acariciavam o Menino de Maria não podiam imaginar que, no encanto desta criança se exprimia em grandeza humana, a ternura do próprio Deus! Como os outros seres humanos, o Menino de Maria era uma concretização única, original e irrepetível de Humanidade.

Mas, além disso, levava em si o mistério do Deus que veio habitar com o Homem. A sua interioridade humano-divina era constituída por uma unidade orgânica e dinâmica de um ser humano com a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. No menino de Maria, o Humano e o Divino, estão unidos sem fusão nem confusão, pois esta união orgânica acontece como perfeita interacção entre o melhor de Deus e do Homem. O Filho de Maria é homem com todos os homens que nasceram de Adão. Mas também é Deus, com o Pai e o Espírito Santo. Este enxerto do Divino no Humano é possível graças ao facto de a Divindade ser constituída por pessoas e Humanidade também.


4- Deu-nos o Poder de Sermos Filhos de Deus

Pelo facto deste menino ser homem connosco, todos nós fomos assumidos e incorporados na família de Deus. Ele é como que a cepa da videira da qual nós somos os ramos. A seiva que vem da cepa para os ramos e os torna fecundos é o Espírito Santo. Eis o que ele disse um dia: “Permanecei em mim, que eu permaneço em vós. Tal como os ramos não podem dar frutos por si mesmos, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira e vós os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, pois sem mim nada podeis fazer (Jo 15, 4-5).

Na verdade, o menino de Maria é o portador da vida eterna para todos nós. Eis o mistério profundo que se habita o coração do Menino de Maria. Ele é, de facto, a Cabeça da Nova Humanidade recriada pelo Espírito Santo e reconciliada com Deus (2 Cor 5, 17-19). Este menino crescia como outra criança qualquer. Chamava pai a um homem e mãe a uma mulher. Quando o Menino de Maria brincava com os outros meninos, ninguém podia imaginar o mistério que se ocultava no coração daquela criança.


5- Ele é a Árvore da Vida Eterna

Este menino é a expressão máxima da fecundidade de Maria e a garantia da nossa salvação. Foi nele que a vida eterna ficou ao alcance de todos nós. Ele é a Árvore da Vida colocada por Deus no centro do Paraíso, da qual Adão não foi digno, como diz o livro do Génesis: “O Senhor Deus disse, então: “Eis que o Homem, Quanto ao conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós. Agora é preciso impedi-lo de estender mão e colher o fruto da arvore da vida, pois comendo dele, viveria para sempre”. O Senhor Deus expulsou Adão do Jardim do Éden, a fim de cultivar a terra da qual fora tirado” (Gn 3, 22-24).

No momento da sua morte e ressurreição, o menino de Maria abriu o Paraíso que Adão tinha fechado: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso, disse ele ao Bom Ladrão” (Lc 23, 42-43). O Menino de Maria é o Novo Adão. É também a Arvora da vida que nos dá o fruto da Vida Eterna: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu hei-de ressuscitá-lo no último dia. De facto, a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue é uma verdadeira comida e o meu sangue é uma verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, Também aquele que me come viverá por mim” (Jo 6, 54-57). Ditosa és tu Maria, pelo Filho que acolheste nos teus braços!
JOSÉ DOS SANTOS CALMEIRO MATIAs

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Espírito Santo e a Virgem Maria


RCARTA ENCÍCLICA
DIVINUM ILLUD MUNUS
DO SUMO PONTÍFICE
LEÃO XIII
SOBRE A PRESENÇA E
VIRTUDE ADMIRÁVEL DO ESPÍRITO SANTO


INTRODUÇÃO

1. Aquela divina missão que, recebida do Pai em benefício do gênero humano, tão santamente desempenhou Jesus Cristo, tem como último fim fazer que os homens cheguem a participar de uma vida bem-aventurada na glória eterna; e, como fim imediato, que durante a vida mortal vivam a vida da graça divina, que ao final se abre florida na vida celestial.

Por isso, o Redentor mesmo não cessa de convidar com suma doçura a todos os homens de toda nação e língua para que venham ao seio de sua Igreja: Venham todos a mim; Eu sou a vida; Eu sou o bom pastor. Mas, segundo seus altíssimos decretos, não quis Ele completar por si só incessantemente na terra tal missão, mas que, como Ele mesmo a tinha recebido do Pai, assim a entregou ao Espírito Santo para que a levasse a perfeito término. Apraz, com efeito, recordar as consoladoras frases que Cristo, pouco antes de abandonar o mundo, pronunciou diante dos Apóstolos:
"Convém a vós que eu vá! Porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo-lo enviarei". (1)

E ao dizer assim, deu como razão principal de sua separação e de sua volta ao Pai o proveito que seus discípulos haveriam de receber com a vinda do Espírito Santo; ao mesmo tempo que mostrava com este era igualmente enviado por Ele e, portanto, que dEle procedia como do Pai; e que com advogado, como consolador e como mestre concluiria a obra por Ele iniciada durante sua vida mortal. A perfeição de sua obra redentora estava providencialmente reservada à múltipla virtude desse Espírito, que na criação adornou os céus (2) e encheu a terra (3).

2. E Nós, que constantemente temos procurado, com o auxílio de Cristo Salvador, príncipe dos pastores e bispo de nossas almas, imitar seus exemplos, temos continuado religiosamente sua mesma missão, encomendada aos Apóstolos, principalmente a Pedro, cuja dignidade também se transmite a um herdeiro menos digno (4). Guiados por esta intenção, em todos os atos de nosso pontificado a duas coisas principalmente temos atendido e sem cessar atendemos. Primeiro, a restaurar a vida cristã tanto na sociedade pública como na familiar, tanto nos governantes como nos povos; porque somente de Cristo pode se derivar a vida para todos. Segundo, a fomentar a reconciliação com a Igreja daqueles que, por causa da fé ou por obediência, estão separados dela; pois a verdadeira vontade do mesmo Cristo é que haja só um rebanho sob um só Pastor. E agora, quando nos sentimos próximos do fim de nossa carreira mortal, apraz consagrar toda nossa obra, qualquer que tenha sido, ao Espírito Santo, que é vida e amor, para que a fecunde e a madure. Para cumprir melhor e mais eficazmente nosso desejo, em vésperas da solenidade de Pentecostes, queremos lhes falar da admirável presença e poder do mesmo Espírito; ou seja, sobre a ação que Ele exerce na Igreja e nas almas graças ao dom de suas graças e carismas celestiais. Resulte disso, como é nosso desejo ardente, que nas almas se reavive e se vigore a fé no augusto mistério da Trindade, e especialmente cresça a devoção ao divino Espírito, a quem de muito são devedores todos quanto seguem o caminho da verdade e da justiça; pois, como assinalou São Basílio, toda a economia divina ao redor do homem, se foi realizada por nosso Salvador e Deus, Jesus Cristo, tem sido levada a cumprimento pela graça do Espírito Santo (5).



O MISTÉRIO DA TRINDADE

3. Antes de entrar na matéria será conveniente e útil tratar algo sobre o mistério da sacrossanta Trindade.

Este mistério, o maior de todos os mistérios, pois de todos é princípio e fim, é chamado pelos doutores sagrados substância do Novo Testamento; para conhecê-lo e contemplá-lo foram criados, no céu os anjos e na terra os homens; para ensinar com maior clareza o que foi prefigurado no Antigo Testamento, Deus mesmo desceu dos anjos aos homens: "Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou" (6).

Assim pois, quem escreve ou fala sobre a Trindade sempre deverá ter em vista o que prudentemente admonesta o Angélico: "Quando se fala da Trindade, convêm fazê-lo com prudência e humildade, pois – como diz Agostinho – em nenhuma outra matéria intelectual é maior o trabalho ou o perigo de equivocar-se ou o fruto uma vez alcançado" (7). Perigo que procede de confundir entre si, na fé ou na piedade, as pessoas divinas ou de multiplicar sua única natureza; pois a fé católica nos ensina a venerar um só Deus na Trindade e a Trindade em um só Deus.

4. Por isso, nosso predecessor Inocêncio XII não atendeu a petição daqueles que solicitavam uma festa especial em honra do Pai. Se existem certos dias festivos para celebrar um dos mistérios do Verbo Encarnado, não existe uma festa própria para celebrar o Verbo tão somente segundo sua natureza; e ainda a mesma solenidade de Pentecostes, já tão antiga, não se refere simplesmente ao Espírito Santo por si, mas que recorda sua vinda ou missão externa. Tudo isso foi prudentemente estabelecido para evitar que ninguém multiplicasse a divina essência, ao distinguir as Pessoas. Mais ainda: a Igreja, a fim de manter em seus filhos a pureza da fé, quis instituir a festa da Santíssima Trindade, que logo João XXII mandou celebrar em todas as partes; permitiu que se dedicassem a este mistério templos e altares e, depois de celestial visão, aprovou uma Ordem religiosa para a redenção dos cativos, em honra da Santíssima Trindade, cujo nome a distinguia.

Convém assinalar que o culto tributado aos Santos e Anjos, à Virgem Mãe de Deus e a Cristo, redunda todo e se termina na Trindade. Nas preces consagradas a uma das três pessoas divinas, também se faz menção das outras; nas litanias, assim que se invoca a cada uma das Pessoas separadamente, se termina por sua invocação comum; todos os salmos e hino tem a mesma doxologia ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo; as bênçãos, os ritos, os sacramentos, ou se fazem em nome da Santa Trindade, ou lhes acompanha sua intercessão. Tudo o que já havia anunciado o Apóstolo com aquela frase: "Dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele a glória por toda a eternidade! Amém" (8); significando assim a trindade das Pessoas e a unidade de natureza, pois por ser esta uma e idêntica em cada uma das Pessoas, procede que a cada uma se tribute, como a um e mesmo Deus, igual glória e coeterna majestade. Comentando aquelas palavras, diz Santo Agostinho: "Não se interprete confusamente o que o Apóstolo distingue, quando diz "Dele, por ele e para ele"; pois diz "dele" pelo Pai, "por ele" por causa do Filho; "para ele", em relação ao Espírito Santo" (9).


Apropriações


5. Com grande propriedade, a Igreja costuma atribuir ao Pai as obras de poder; ao Filho, as da sabedoria; ao Espírito Santo, as do amor. Não porque todas as perfeições e todas as obras ad extra não sejam comuns às três Pessoas divinas, pois indivisíveis são as obras da Trindade, como indivisa é sua essência (10), porque assim como as três Pessoas divinas são inseparáveis, assim obram inseparavelmente (11); mas que por uma certa relação e como afinidade que existe entre as obras externas e o caráter "próprio" de cada Pessoa, se atribuem a uma melhor que as outras, ou – como dizem – "se apropriam". Assim como da semelhança do vestígio ou imagem existente nas criaturas nos servimos para manifestar as divinas Pessoas, assim fazemos também com os atributos divinos; e a manifestação deduzida dos atributos divinos se diz "apropriação" (12).

Desta maneira, o Pai, que é princípio de toda a Trindade (13), é a causa eficiente de todas as coisas, da Encarnação do Verbo e da santificação das almas: "De Deus são todas as coisas"; "de Deus", por relação ao Pai: o Filho, Verbo e Imagem de Deus, é a causa exemplar pela qual todas as coisas têm forma e beleza, ordem e harmonia, ele, que é caminho, verdade e vida, tem reconciliado o homem com Deus; "por Deus", por relação ao Filho; finalmente, o Espírito Santo é a causa última de todas as coisas, posto que, assim como a vontade e ainda toda coisa descansa em seu fim, assim Ele, que é a bondade e o amor do Pai e do Filho, dá forte impulso forte e suave e como a última mão ao misterioso trabalho de nossa eterna salvação: "em Deus", por relação ao Espírito Santo.


O Espírito Santo e Jesus Cristo


6. Já precisados os atos de fé e de culto devidos à augustíssima Trindade, o qual tudo nunca se inculcará bastante ao povo cristão, nosso discurso agora se dirige a tratar do eficaz poder do Espírito Santo. Antes de tudo, dirijamos um olhar a Cristo, fundador da Igreja e Redentor do gênero humano. Entre todas as obras de Deus ad extra, a maior é, sem dúvida, o mistério da Encarnação do Verbo; nele brilha de tal modo a luz dos divinos atributos, que nem é possível pensar nada superior nem pode haver nada mais saudável para nós. Este grande prodígio, ainda quando realizado por toda a Trindade, sem embargo se atribui como "próprio" ao Espírito Santo, e assim diz o Evangelho que a concepção de Jesus no seio da Virgem foi obra do Espírito Santo (14), e com razão, porque o Espírito Santo é a caridade do Pai e do Filho, e este grande mistério da bondade divina (15), que é a Encarnação, foi devido ao imenso amor de Deus ao homem, como adverte São João: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único". (16) Acrescenta-se que por dito ato a natureza humana foi levantada à união pessoal com o Verbo, não por mérito algum, mas somente por pura graça, que é dom próprio do Espírito Santo: "O admirável modo – diz Santo Agostinho – com que Cristo foi concebido por obra do Espírito Santo, nos dá a entender a bondade de Deus, posto que a natureza humana, sem mérito algum precedente, já no primeiro instante foi unida ao Verbo de Deus em unidade tão perfeita de pessoa que um mesmo fosse de uma vez Filho de Deus e Filho do homem (17).

Por obra do Espírito Divino teve lugar não somente a concepção de Cristo, mas também a santificação de sua alma, chamada unção nos Sagrados Livros (18), e assim é como toda ação sua se realizava sob o influxo do mesmo Espírito (19), que também cooperou de modo especial a seu sacrifício, segundo a frase de São Paulo: "Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu como vítima sem mácula a Deus" (20). Depois de tudo isto, já não se estranhará que todos os carismas do Espírito Santo inundassem a alma de Cristo. Posto que nEle houve uma abundância de graça singularmente plena, de maneira maior e com maior eficácia que se pudesse ter; nele, todos os tesouros da sabedoria e da ciência, as graças gratias datas, as virtudes, e plenamente todos os dons, já anunciados nas profecias de Isaías (21), já simbolizados naquela misteriosa pomba aparecida no Jordão, quando Cristo com seu batismo consagrava suas águas para o novo Testamento.

Com razão nota Santo Agostinho que Cristo não recebeu o Espírito Santo tendo já trinta anos, mas que quando foi batizado estava sem pecado e já tinha o Espírito Santo; então, ou seja, no batismos, não fez senão prefigurar o seu corpo místico, ou seja, a Igreja na qual os batizados recebem de modo peculiar o Espírito Santo (22). E assim a aparição sensível do Espírito sobre Cristo e sua ação invisível em sua alma representavam a dupla missão do Espírito Santo, visível na Igreja e invisível na alma dos justos.



O ESPÍRITO SANTO E A IGREJA


Nos Apóstolos, bispos e sacerdotes


7. A Igreja, já concebida e nascida do coração mesmo do segundo Adão na Cruz, se manifestou aos homens pela primeira vez de modo solene no célebre dia de Pentecostes com aquela admirável efusão, que havia sido vaticinada pelo profeta Joel (23); e naquele mesmo dia se iniciava a ação do divino Paráclito no místico corpo de Cristo, pousando sobre os Apóstolos, como novas coroas espirituais, formadas com línguas de fogo, sobre suas cabeças (24) .

E então os Apóstolos desceram do monte, como escreve o Crisóstomo, não mais levando em suas mãos como Moisés tábuas de pedra, mas o Espírito Santo em sua alma, derramando o tesouro e fonte de verdade e de carismas (25). Assim, certamente se cumpria a última promessa de Cristo a seus Apóstolos, a de lhes enviar o Espírito Santo, para que com sua inspiração completara e de certo modo selar o depósito da revelação: "Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. "Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade" (26). O Espírito Santo, que é espírito da verdade, pois procede do Pai, Verdade eterna, e do Filho, Verdade substancial, recebe de um e outro, juntamente com a essência, toda a verdade que logo comunica à Igreja, assistindo-a para que não erre jamais, e fecundando os germes da revelação até que, no momento oportuno, cheguem à maturidade para a saúde dos povos. E como a Igreja, que é meio de salvação, há de durar até a consumação dos séculos, precisamente o Espírito Santo a alimenta e acrescenta em sua vida e em sua virtude: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco". (27) Pois por Ele são constituídos os bispos, que engendram não só filhos, mas também pais, isto é, sacerdotes, para guiá-la e alimentá-la com aquele mesmo sangue com que foi redimida por Cristo: "O Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu próprio sangue" (28); uns e outros, bispos e sacerdotes, por singular dom do Espírito têm poder de perdoar os pecados, segundo Cristo disse a seus apóstolos: "Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos". (29)


Nas almas


8. Nada confirma tão claramente a divindade da Igreja como o glorioso esplendor de carismas que por todas as partes a circundam, coroa magnífica que ela recebe do Espírito Santo. Baste, por último, saber que se Cristo é a cabeça da Igreja, o Espírito Santo é sua alma: "O que a alma é em nosso corpo, o Espírito Santo é no corpo de Cristo, que é a Igreja" (30). Se é assim, não cabe imaginar nem esperar ainda outra maior e mais abundante manifestação e aparição do Divino Espírito, pois a Igreja tem já o máximo, que há de durar até que, desde o estado da milícia terrena, seja elevada triunfante ao coro feliz da sociedade celestial.

Não menos admirável, ainda que em verdade seja mais difícil de entender, é a ação do Espírito Santo nas almas, que se oculta a todo olhar sensível.

E esta efusão do Espírito é de abundância tanta que o mesmo Cristo, seu doador, a assemelhou a um rio abundantíssimo, como afirma São João: "Quem crê em mim, como diz a Escritura: Do seu interior manarão rios de água viva"; testemunho que glosou o mesmo evangelista dizendo: "Dizia isso, referindo-se ao Espírito que haviam de receber os que cressem nele". (31)


No Antigo e no Novo Testamento


9. Certo é que ainda nos mesmos justos do Antigo Testamento já habitou o Espírito Santo, segundo sabemos dos profetas, de Zacarias, do Batista, de Simeão e de Ana; pois não foi no Pentecostes quando o Espírito Santo começou a habitar nos Santos pela primeira vez: naquele dia aumentou seus dons, mostrando-se mais rico e mais abundante em sua generosidade (32). Também aqueles eram filhos de Deus, mas ainda permaneciam na condição de servos, porque tampouco o filho se diferencia do servo, enquanto está sob tutela (33); ainda que a justiça neles não era senão pelos previstos méritos de Cristo, e a comunicação do Espírito Santo depois de Cristo é muito mais copiosa, como a coisa pactuado vence em valor a garantia, e como a realidade excede em muito a sua figura. E por isso assim o afirmou João: "Pois ainda não fora dado o Espírito, visto que Jesus ainda não tinha sido glorificado" (34). Assim que Cristo, ascendendo ao alto, tomou posse de seu reino, conquistado com tanto trabalho, com divina munificência abriu seus tesouros, repartindo aos homens os dons do Espírito Santo (35): "E não é que antes não houvesse sido mandado o Espírito Santo, mas que não havia sido dado como o foi depois da glorificação de Cristo (36). E isto porque a natureza humana é essencialmente serva de Deus: "A criatura é serva, nós somos servos de Deus segundo a natureza" (37); mais ainda: pelo primeiro pecado toda nossa natureza caiu tão abaixo que se tornou inimiga de Deus: "Éramos como os outros, por natureza, verdadeiros objetos da ira (divina)" (38). Não existia força capaz de nos levantar de queda tão grande e nos resgatar da ruína eterna. Mas Deus, que nos criou, se moveu de piedade; e por meio de seu Unigênito restituiu ao homem à nobre altura de onde havia caído, e ainda lhe realçou com mais abundante riqueza de dons. Nenhuma língua pode expressar este trabalho da divina graça nas almas dos homens, pelo que são chamados, nas Sagradas Escrituras e nos escritos dos Padres da Igreja, regenerados, novas criaturas, participantes da divina natureza, filhos de Deus, deificados, e muito mais ainda. Agora bem: benefícios tão grandes propriamente os devemos ao Espírito Santo.

Ele é o Espírito de adoção dos filhos, no qual clamamos: "Abba", "Pai"; inunda os corações com a doçura de seu paternal amor: dá testemunho a nosso espírito de que somos filhos de Deus (39). Para declarar o quão é oportuníssima aquela observação do Angélico, de que tem certa semelhança entre as duas obras do Espírito Santo; posto que pela virtude do Espírito Santo Cristo foi concebido em santidade para ser filho natural de Deus, e os homens são santificados para serem filhos adotivos de Deus (40). E assim, com tão grande nobreza ainda que na ordem natural, a geração espiritual é fruto do Amor incriado.


Nos Sacramentos


10. Esta regeneração e renovação começa para cada um no batismo, sacramento no qual, arrancado da alma o espírito imundo, desce a ela pela primeira vez o Espírito Santo, tornando-a semelhante a si: "O que nasceu do Espírito é espírito" (41). Com mais abundância nos é dado o mesmo Espírito na confirmação, pela qual nos infunde fortaleza e constância para viver como cristãos; é o mesmo Espírito que venceu nos mártires e triunfou nas virgens sobre as bajulações e perigos. Temos dito que "nos é dado o mesmo Espírito": "Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (42). E em verdade, não só nos enche de dons divinos, mas que é autor dos mesmos e ainda Ele mesmo é o dom supremo porque, ao proceder do mútuo amor do Padre e do Filho, com razão é dom do Deus altíssimo. Para melhor entender a natureza e efeitos deste dom, convém recordar quanto, depois das Sagradas Escrituras, ensinaram os doutores sagrados, isto é, que Deus se faz presente em todas as coisas e que está nelas: por potência, enquanto se fazem sujeitas a sua potestade; por presença, enquanto todas estão abertas e patentes a seus olhos; por essência, porque em todas se faz como causa de seu ser (43). Mas na criatura racional se encontra Deus ainda de outra maneira; isto é, enquanto é conhecido e amado, já que segundo natureza é amar o bem, desejá-lo e buscá-lo. Finalmente, Deus, por meio de sua graça, está na alma do justo na forma mais íntima e inefável, como em seu templo; e disso se segue aquele mútuo amor pelo que a alma está intimamente presente a Deus, e está nele mais do que possa suceder entre os amigos mais queridos, e goza dele com a mais agradável doçura.


Na habitação


11. E esta admirável união, que propriamente se chama habitação, e que somente na condição ou estado, mas não na essência, difere-se do que constitui a felicidade no céu, ainda que realmente cumpre-se por obra de toda a Trindade, pela vinda e morada das três Pessoas divinas na alma amante de Deus, "viremos a ele e nele faremos nossa morada" (44), se atribui, sem embargo, como peculiar ao Espírito Santo. E é certo que até entre os ímpios aparecem vestígios do poder e sabedoria divinos; mas da caridade, que é como "nota" própria do Espírito Santo, tão somente o justo participa.

Acrescente-se que a este Espírito se dá o apelativo de Santo, também porque, sendo o primeiro e eterno Amor, nos move e excita a santidade, que em resumo não é senão o amor de Deus. E assim, o Apóstolo, quando chama aos justos 'templo de Deus', nunca lhe chama 'templos do Pai' ou 'do Filho', mas 'do Espírito Santo': "Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual recebestes de Deus?" (45). À habitação do Espírito Santo nas almas justas segue a abundância dos dons celestiais. Assim ensina Santo Tomás: "O Espírito Santo, ao proceder como Amor, procede em razão do dom primeiro; por isto diz Agostinho que, por meio deste dom que é o Espírito Santo, muitos outros dons se distribuem aos membros de Cristo" (46). Entre estes dons estão aqueles ocultos avisos e convites que se fazem sentir na mente e no coração pela moção do Espírito Santo; deles depende o princípio do bom caminho, o progresso nele e a salvação eterna. E posto que estas vozes e inspirações nos chegam bem ocultamente, com toda razão nas Sagradas Escrituras alguma vez se dizem semelhantes ao sussurro do vento; e o Angélico Doutor sabiamente as compara com os movimentos do coração, cuja virtude toda se faz oculta: "O coração tem uma certa influência oculta, e por isso ao coração se compara o Espírito Santo que invisivelmente vivifica a Igreja e a une" (47).


Nos sete dons e nos frutos


12. E o homem justo, que já vive a vida da divina graça e opera por congruentes virtudes, como a alma por suas potências, tem necessidade daqueles sete dons que se chamam próprios do Espírito Santo. Graças a estes a alma se dispõe e se fortalece para seguir mais fácil e prontamente as divinas inspirações: é tanta a eficácia destes dons, que a conduzem ao topo da santidade; e tanta sua excelência, que preservam intactos, ainda que mais perfeitos, no reino celestial. Graças a esses dons, o Espírito Santo nos move e realça a desejar e conseguir as bem-aventuranças evangélicas, que são como flores abertas na primavera, como indício e presságio da eterna bem-aventurança. E muito prazerosos são, finalmente, os frutos enumerados pelo Apóstolo (48) que o Espírito Santo produz e comunica aos homens justos, ainda durante a vida mortal, cheios de toda doçura e gozo, pois são do Espírito Santo que na Trindade é o amor do Pai e do Filho que enche de infinita doçura as criaturas todas (49).

E assim o Divino Espírito, que procede do Pai e do Filho na eterna luz de santidade como amor e como dom, depois de ter-se manifestado através de imagens no Antigo Testamento, derrama a abundância de seus dons em Cristo e em seu corpo místico, a Igreja; e com sua graça e saudável presença levanta os homens dos caminhos do mal, transformando-lhes de terrenas e pecadores em criaturas espirituais e quase celestiais. Pois tantos e tão assinalados são os benefícios recebidos da bondade do Espírito Santo, a gratidão nos obriga a voltar-nos a Ele, cheios de amor e devoção.



EXORTAÇÕES


Fomente-se o conhecimento e amor do Espírito Santo


13. Seguramente farão isto muito bem e perfeitamente os homens cristãos se cada dia se empenharem mais em conhecê-lo, amá-lo e lhe suplicar; a esse fim tem esta exortação dirigida aos mesmos, tal como surge espontânea de nosso paternal ânimo.

Acaso não faltem em nossos dias alguns que, ao serem interrogados como em outro tempo foram alguns por São Paulo "se haviam recebido o Espírito Santo", responderiam por sua vez: "Não, nem sequer ouvimos dizer que há um Espírito Santo!" (50). Que se a tanto não chega a ignorância, em uma grande parte deles é muito escasso seu conhecimento sobre Ele; talvez até com freqüência tem seu nome nos lábios, enquanto sua fé está cheia de crassas trevas. Recordem, pois, os pregadores e párocos que lhes pertencem ensinar com diligência e claramente ao povo a doutrina católica sobre o Espírito Santo, mas evitando as questões árduas e sutis e fugindo da néscia curiosidade que presume indagar os segredos todos de Deus. Cuidem recordar e explicar claramente os muitos e grandes benefícios que do Divino Doador nos vêm constantemente, de forma que sobre coisas tão altas desapareça o erro e a ignorância, impróprios dos filhos da luz. Insistimos nisto não só por tratar-se de um mistério, que diretamente nos prepara para a vida eterna e que, por isso, é necessário crer firme e expressamente, mas também porque, quanto mais clara e plenamente se conhece o bem, mais intensamente se quer e se ama. Isto é o que agora queremos lhes recomendar: Devemos amar o Espírito Santo, porque é Deus: "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças" (51). E há de ser amado, porque é o Amor substancial eterno e primeiro, e não há coisa mais amável que o amor; e depois tanto mais lhe devemos amar quanto que nos tenha enchido de imensos benefícios que, se atestam a benevolência do doador, exigem a gratidão da alma que os recebe. Amor este que tem uma dupla utilidade, certamente não pequena. Primeiramente nos obriga a ter nesta vida um conhecimento cada dia mais claro do Espírito Santo: O que ama, diz Santo Tomás, não se contenta com um conhecimento superficial do amado, mas se esforça por conhecer uma das coisas que lhe pertencem intrinsecamente, e assim entra em seu interior, como do Espírito Santo, que é amor de Deus, se diz que examina até o profundo de Deus (52). Em segundo lugar, que será maior ainda a abundância de seus dons celestiais, pois como a frieza faz fechar a mão do doador, o agradecimento a faz alargar-se. E cuide-se bem de que dito amor não se limite a áridas disquisições ou a externos atos religiosos; porque deve ser operante, fugindo do pecado, que é especial ofensa contra o Espírito Santo. Quanto somos e temos, tudo é dom da divina bondade que corresponde como própria ao Espírito Santo; sem dúvida o pecador o ofende ao mesmo tempo que recebe seus benefícios, e abusa de seus dons para ofender-lhe, ao mesmo tempo que, porque é bom, se levanta contra Ele multiplicando incessantemente suas culpas.


Não o entristeçamos


14. Acrescente-se, ademais, que, então o "Espírito Santo é espírito de verdade", se alguém falta por debilidade ou ignorância, talvez tenha alguma desculpa diante do tribunal de Deus; mas aquele que por malícia se opõe à verdade ou a evita, comete gravíssimo pecado contra o Espírito Santo. Pecado tão freqüente em nossa época que parecem ter chegado os tristes tempos descritos por São Paulo, nos quais, obcecados os homens por justo juízo de Deus, reputam como verdadeiras as coisas falsas, e ao príncipe deste mundo, que é mentiroso e pai da mentira, o crêem como mestre da verdade: "Por isso, Deus lhes enviará um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro" (53): "O Espírito diz expressamente que, nos tempos vindouros, alguns hão de apostatar da fé, dando ouvidos a espíritos embusteiros e a doutrinas diabólicas" (54): E já que o Espírito Santo, segundo temos dito antes, habita em nós como em seu templo, repitamos com o Apóstolo: "Não contristeis o Espírito Santo de Deus, com o qual estais selados para o dia da Redenção" (55). Para isto não basta fugir de tudo que é imundo, mas que o homem cristão deve resplandecer em toda virtude, especialmente em pureza e santidade, para não desagradar a tão grande hóspede, posto que a pureza e a santidade são próprias do templo. Por isso exclama o mesmo Apóstolo: "Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é sagrado - e isto sois vós" (56); tremenda ameaça, porém justíssima.


Peçamos o Espírito Santo


15. Por último, convêm rogar e pedir ao Espírito Santo, cujo auxílio e proteção todos necessitamos em extremo. Somos pobres, débeis, atribulados, inclinados ao mal: então recorramos a Ele, fonte inesgotável de luz, de consolo e de graça. Sobretudo, devemos lhe pedir perdão dos pecados, que tão necessário nos é, posto que é o Espírito Santo dom do Pai e do Filho, e os pecadores são perdoados por meio do Espírito Santo como por dom de Deus (57), o qual se proclama expressamente na liturgia quando ao Espírito Santo lhe chama remissão de todos os pecados (58).

Qual seja a maneira conveniente para invocá-lo, aprendamo-la da Igreja, que suplicante se volve ao mesmo Espírito Santo e o chama com os nomes mais doces de pai dos pobres, doador dos dons, luz dos corações, consolador benéfico, hóspede da alma, aura de refrigério; e lhe suplica encarecidamente que limpe, cure e regue nossas mentes e nossos corações, e que conceda a todos os que nEle confiamos o prêmio da virtude, o feliz final da vida presente, o perene gozo na futura. Nem cabe pensar que essas preces não sejam escutadas por aquele de quem lemos que roga por nós com gemidos inefáveis (59). Em resumo, devemos suplicar-lhe com confiança e constância para que diariamente nos ilustre mais e mais com sua luz e nos inflame com sua caridade, dispondo-nos assim pela fé e pelo amor a que trabalhemos com denodo para adquirir os prêmios eternos, posto que Ele é a garantia de nossa herança (60).


Novena do Espírito Santo


16. Vede, veneráveis irmãos, os avisos e exortações nossas sobre a devoção ao Espírito Santo, e não duvidamos que por virtude principalmente de vosso trabalho e solicitude, se produzirão saudáveis frutos no povo cristão. Certo que jamais faltará nossa obra em coisa de tão grande importância; mais ainda, temos a intenção de fomentar esse tão belo sentimento de piedade por aqueles modos que julgaremos mais convenientes a tal fim. Entretanto, posto que Nós, há dois anos, por meio do breve Provida Matris, recomendamos aos católicos para a solenidade de Pentecostes algumas orações especiais a fim de suplicar pelo cumprimento da unidade cristã, nos apraz agora acrescentar aqui algo a mais. Decretamos, portanto, e mandamos que em todo mundo católico neste ano, e sempre no porvir, à festa de Pentecostes preceda a novena em todas as igrejas paroquiais e também ainda nos demais templos e oratórios, a juízo dos Ordinários.

Concedemos a indulgência de sete anos e outras tantas quarentenas por cada dia a todos os que assistirem a novena e orarem segundo nossa intenção, acrescida da indulgência plenária em um dia de novena, ou na festa de Pentecostes e ainda dentro da oitava, sempre que confessados e comungados orarem segundo nossa intenção. Queremos igualmente também que gozem de tais benefícios todos aqueles que, legitimamente impedidos, não possam assistir aos ditos cultos públicos, e isto ainda nos lugares onde não puderem celebrar-se comodamente – a juízo do Ordinário – no templo, com tal que privadamente façam a novena e cumpram as demais obras e condições prescritas. E nos apraz acrescentar do tesouro da Igreja que possam lucrar novamente uma e outra indulgência todos os que em privado ou em público renovem segundo sua própria devoção algumas orações ao Espírito Santo cada dia da oitava de Pentecostes até a festa inclusive da Santíssima Trindade, sempre que cumpram as demais condições acima indicadas. Todas essas indulgências são aplicáveis também ainda às benditas almas do Purgatório.


O Espírito Santo e a Virgem Maria


17. E agora nosso pensamento se volta aonde começou, a fim de obter do divino Espírito, com incessantes orações seu cumprimento. Uni, pois, veneráveis irmãos, a nossas orações também as vossas, assim como as de todos os fiéis, interpondo a poderosa e eficaz mediação da Santíssima Virgem. Bem sabeis quão íntimas e inefáveis relações existem entre ela e o Espírito Santo, visto que é sua Esposa imaculada. A Virgem cooperou com sua oração muitíssimo assim ao mistério da Encarnação como à vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos. Que Ela continue, pois, realçando com seu patrocínio nossas comuns orações, para que no meio das aflitas nações se renovem os divinos prodígios do Espírito Santo, celebrados já pelo profeta Davi: "Se enviais, porém, o vosso sopro, eles revivem e renovais a face da terra" (61).

Dado em Roma, junto a São Pedro, no dia 9 de maio de 1897, vigésimo de nosso pontificado.

Hino Veni Creator


Hino Veni Creator
Vinde, Espírito Criador,
visitai as almas dos Vossos,
enchei de graça celestial,
os corações que criastes.

Sois o Divino Consolador,
o dom do Deus Altíssimo,
fonte viva, o fogo, a caridade,
a unção dos espirituais.

Com os Vossos sete dons,
sois o dedo da direita de Deus,
Solene promessa do Pai,
Inspirando nossas palavras.

Acendei a luz nos sentidos;
insuflai o amor nos corações,
amparai na constante virtude
a nossa carne enfraquecida.

Afastai para longe o inimigo,
Trazei-nos prontamente a paz;
Assim guiados por Vós
Evitaremos todo o mal.

Por Vós explicar-se-á o Pai,
E conheceremos o Filho;
Dai-nos crer sempre em Vós
Espírito do Pai e do Filho.

Glória ao Pai, Senhor,
Ao Filho que ressuscitou
Assim como ao Consolador.
Por todos os séculos. Amém.

V/ Enviai, Senhor, o vosso espírito e tudo será criado.
R/ E renovareis a face da terra.

Ó Deus, que ilustrastes os corações dos fiéis com as luzes do Espírito Santo, dai-nos, pelo mesmo Espírito, procurar o que é reto, e nos alegrarmos sempre com a sua consolação. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.

Veni, Creator Spíritus,
mentes tuórum visita,
imple supérna grátia,
quae tu creásti péctora.

Qui díceris Paráclitus,
altíssimi donum Dei,
fons vivus, ignis, cáritas,
et spiritális únctio.

Tu septifórmis múnere,
dígitus paternae déxterae,
tu rite promíssum Patris,
sermóne ditans gúttura.

Accénde lumen sénsibus;
infunde amórem córdibus,
infírma nostri córporis
virtúte firmans pérpeti.

Hostem repéllas lóngius,
pacémque dones prótinus;
ductóre sic te praevio
vitemus omne noxium.

Per te sciámus da Patrem,
noscamus atque Filium;
teque utriúsque Spíritum
credamus omni témpore.

Deo Patri sit glória,
et Fillio, qui a mórtuis
surréxit, ac Paráclito,
in saeculórum saecula. Amem.

V/ Emítte Spíritum tuum, et creabúntur.
R/ Et renovábis fáciem terrae.

Deus qui corda fidélium Sancti Spíritus illustratióne docuísti: da nobis in eódem Spíritu recta sápere; et de ejus semper consolatióne gaudére. Per Christum dominum nostrum. Amém.

Te ofereço, ó Divino Espírito Santo, a oração de Maria e dos Apóstolos no Cenáculo


Renascer

Peço-te, ó Jesus, de renascer, mas de renascer do alto.
Peço-te rebatizar-me e renovar-me no teu Espírito...
Ele seja sempre a inspiração dos meus pensamentos,
o estímulo da minha vontade, o centro dos meus afetos,
O guia das minhas palavras, o sustento da minha esperança,
O motivo e o fim de minhas ações, o amigo do meu coração,
O companheiro da vida, o meu conforto na morte,
O meu tesouro para a eternidade...
Que a minha vida seja um incessante renascer e crescer no Espírito.
Veni Spiritus

Ó Divino Espírito, que pela Igreja sois chamado Criador, não somente porque és em relação a nós, criaturas; mas também, porque movendo nas nossas almas, santos pensamentos e afetos, criais em nós aquela santidade que é obra Vossa!
Venha também sobre nós a Vossa benéfica virtude, e enquanto nós Vos honrarmos com este devoto exercício, digne-se de visitar-Nos com a Tua Divina Luz a nossa mente, e com suprema graça o nosso coração, para que as nossas orações subam agradáveis a Vós, e do Céu, desça sobre nós a abundancia das Vossas divinas misericórdias. Amém!

Oração ao Espírito por intercessão de Elena Guerra


O adorável Espírito de Deus, que se manifestastes à Beata Elena Guerra com a abundância de teus dons e carismas, e lhe confiou o perene renovar-se de teu Pentecostes, pela docilidade e fidelidade à missão a ela confiada, nós te pedimos de torná-la ainda hoje testemunha do teu amor no escutar nossa oração por...
Reaviva, ó Deus Consolador, a nossa fé e a nossa esperança a fim que possamos caminhar com serena coragem, rumo ao encontro definitivo. Amém!

Que tudo em mim seja amor...


Que a fé seja o amor que crê,
Que a esperança seja o amor que espera,
Que a adoração seja o amor que se prosta,
Que a oração seja o amor que te encontra,
Que o cansaço seja o amor que trabalha,
Que a mortificação seja o amor que se imola,
Que somente o teu amor ó Deus, dirija os meus pensamentos,
as minhas palavras e as minhas obras.


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Oferta diária ao Espírito Santo

Te ofereço, ó Divino Espírito Santo, a oração de Maria e dos Apóstolos no Cenáculo, e a esta uno a minha, para que se realize em mim, na Igreja e no mundo, um Novo Pentecostes de Amor!
Maria, Virgem do Cenáculo, Rogai por nós!
Beata Elena Guerra, rogai por nós!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

SANTA JOANA D ARC



O Reino Cristianíssimo da França em 1429 estava prestes a desaparecer. Justamente castigada por Deus com quase cem anos de guerras contra os ingleses, como conseqüência do pecado de revolta contra o Papado, cometido no início do século XIV por seu Rei Filipe IV, o Belo.

Seu território estava reduzido a menos da metade e os ingleses cercavam a cidade de Orleans, última barreira que lhes impedia a conquista do resto do país.

O herdeiro do trono, o delfim Carlos, duvidava da legitimidade de seus direitos, e seus capitães e soldados estavam desmoralizados.

"O Analista de Saint Denis, começando a narração do ano de 1419, escrevia: 'Era de se temer, segundo a opinião das pessoas sábias, que a França, essa mãe tão doce, sucumbisse sob o peso de angústias intoleráveis, se o Todo Poderoso não se dignasse atender do alto dos Céus as suas queixas.

Assim apelou-se para as armas espirituais: cada semana faziam-se procissões gerais, cantavam-se piedosas ladainhas e celebravam-se Missas solenes. Em sua terrível decadência, sentindo-se incapaz de salvar-se a si mesmo, o Delfim guardava sua fé no Deus de Clóvis, de Carlos Magno e de São Luís, a sua confiança na Santíssima Virgem".

Em sua infinita misericórdia, quis Deus atender essas preces, e escolheu para salvar a França não um grande chefe de guerra ou um hábil político, mas uma virgem, a fim de mostrar que era unicamente d'Ele e de seu poder que vinha a vitória.

Joana nasceu na festa da Epifania de 1412, na aldeia de Domrémy (Lorena francesa).

Seus pais, Jacques d’Arc e Isabelle Romée, eram “excelentes trabalhadores e fervorosos católicos, que serviam a Deus com um coração simples e educavam seus filhos no trabalho e no temor de Deus”, conforme testemunho de contemporâneos.

Desde seus primeiros anos sua conduta foi pura e irrepreensível. Logo que a idade o permitiu, entregou-se aos trabalhos da casa. Mais que uma criança precoce, Joana era uma menina virtuosa.

Tinha um coração bom e compassivo, uma prudência madura; era modesta, humilde mas determinada, e apontada como exemplo em toda a aldeia.

A inocência de vida e a simplicidade de coração de Joana atraíram-lhe os olhares do Céu. E foi assim que lhe apareceu por vez primeira o Arcanjo São Miguel, rodeado de Anjos.

O Príncipe da milícia celeste narrou-lhe o triste estado (“grande penúria”) em que estava a França, dizendo-lhe que ela deveria apressar-se em socorrê-la; e que Santa Margarida e Santa Catarina viriam também, da parte de Deus, para incentivá-la a isso. E elas vieram. Falaram também da “grande penúria” e da necessidade de ela cumprir essa missão.

Joana mostrou-se digna da missão que lhe foi confiada. Seguindo as diretrizes do “Senhor São Miguel, da Senhora Santa Catarina e da Senhora Santa Margarida”, venceu todas as objeções e foi avante. E, de fato, chegou à corte do rei, em Chinon.

Como se tivesse passado toda a vida nesse ambiente, fez com graça as três reverências de praxe diante do rei. O futuro Carlos VII, para prová-la, estava disfarçado entre os 300 nobres presentes, e um deles tomara seu lugar.

Isso não atrapalhou a donzela, que foi direto a ele. Segundo um contemporâneo, “seu discurso foi abundante, poderoso e inspirado, como o de uma profetiza”.

Participar da Missa é unir-se a Cristo, ao seu sacrifício, não necessariamente entender cada palavra proferida


Alguns motivos para a Missa em latim

Não se quer acabar com o vernáculo. Apenas o Papa quer incentivar a que se façam mais Missas na língua oficial da Igreja. No que está coberto de razão.

Alguns vêem isso com maus olhos, como se fosse algo terrível o cultivo das mais caras tradições da Igreja. É justamente a falta de tradição que dificulta a formação dos católicos.

Durante centenas de anos, celebrou-se a Missa em latim, e o povo não deixou a Igreja por isso. Há fortes razões teológicas, pastorais e litúrgicas para que se celebre em latim (sem deixar de celebrar em português; não é uma oposição, podendo-se celebrar em ambos os idiomas).

Conheço pessoas bem simples, de pouca instrução, que assistem a Missa em latim (seja no rito tridentino, seja no rito novo). E com muito proveito espiritual!

Participar da Missa é unir-se a Cristo, ao seu sacrifício, não necessariamente entender cada palavra proferida ou responder a cada oração.

Mas a Missa em latim não catequizará o povo – é o que dizem alguns...

Ocorre que Missa não é catequese. Missa em latim. Catequese em português. Nunca se deu catequese em latim (salvo para os que o entendem). Somos catequizados pelos meios de catequese: livros, aulas, a homilia na Missa, tudo isso em português.

O único modo pelo qual podemos entender a Missa como catequese é considerando-a em suas cerimônias como algo que nos ensina, passo a passo, os mistérios da fé. Se é assim, há mais um argumento a favor do latim: o uso de uma outra língua, distinta da comum, demonstra que estamos diante de algo sagrado. E isso é catequese. A melhor de todas: a que mostra que a Missa não é show, é sacrifício, e diante do sacrifício não importa que entendamos as palavras, mas o que elas, em seu conjunto, significam.

O latim, por ser língua morta, está protegido das constantes mudanças de significado dos idiomas vivos e, por isso, preserva de modo muito mais eficaz o correto entendimento da doutrina. As línguas modernas assumem significados cada vez mais diversos para seus vocábulos. Hoje, uma palavra tem um sentido, amanhã a mesma terá outro. Como o latim é uma língua morta, isso não ocorre. As palavras terão sempre o mesmo sentido, e assim a doutrina é corretamente transmitida, diminuindo a possibilidade de maus entendidos.

“O uso da Língua Latina é um claro e nobre indício de unidade e um eficaz antídoto contra todas as corruptelas da pura doutrina.” (Sua Santidade, o Papa Pio XII. Encíclica Mediator Dei)

Além disso, o uso de um idioma diferente do que estamos acostumados mostra que a liturgia é algo sacro. O latim demonstraria que estamos em outro clima, em outra atmosfera. Mostraria a solenidade do momento. E isso é importante para bem compreendermos a liturgia. Imagina, estás falando em português o todo tempo. De repente, chegas na igreja, e começa o culto: "In nomine Patris et Filio et Spiritus Sanctus". Já estás em outro local. É o céu na terra. Até a língua muda!

O latim, portanto, fala muito à alma. Na Missa não precisamos entender as palavras, precisamos entender é o que está acontecendo.

De outra sorte, pergunto: é preciso que o povo entenda as PALAVRAS da Missa? Não! O que é preciso é entender a PRÓPRIA Missa! Todos entendemos todas as palavras da Missa? Claro que não. Há muitas passagens de altíssima teologia, que quase ninguém entende.

Mas isso não nos impede de colher frutos da Missa. Se o entendimento das palavras da Missa fosse necessário para cresceres espiritualmente e para apreenderes os frutos da liturgia, então só doutores em teologia iriam à Missa, só eles se beneficiariam.

Muitos analfabetos, que nem sequer sabiam seu idioma direito, iam à Missa em latim e se santificavam na Idade Média, e até poucos anos. Por acaso, eles se afastaram da Igreja por não entenderem latim? Pelo contrário, se santificaram!

Importa entender que a Missa é o Sacrifício da Cruz e nos unirmos a esse ato sublime. Não importa entender o que as palavras da Missa dizem. Ajuda? Sim, pode ajudar, mas importar não importa. E quem quiser acompanhar as palavras pode decorar a Missa em latim, como decora o português, e ainda acompanhar pelos missais e folhetinhos.

O latim, ademais, nos mostra a pertença a uma Igreja maior, universal, que fala a mesma língua. Se tivermos Missa em latim em todas as igrejas (ao lado da Missa em vernáculo), então sempre que estivermos em qualquer lugar do mundo, poderemos ir numa Missa que entenderemos, pois estaremos acostumados.

O motivo de muitos não gostarem do latim é por não terem entendido o que é a Missa, ainda. A Missa é PARA DEUS, não para os homens. Não somos nós que temos de entender as palavras, mas Deus.

Não valorizar a tradição representada pelo latim, por outro lado, é não entender nada da fé católica. Uma Missa em latim evoca a universalidade da Igreja, e mostra que a Igreja tem dois mil anos. Nossa fé não nasceu ontem. Estar em uma Missa em latim mostra-nos que estamos juntos naquilo que os santos viveram.

“O Latim exprime de maneira palmar e sensível a unidade e a universalidade da Igreja.” (Sua Santidade, o Papa João Paulo I, Discurso ao Clero Romano)

E quem não gostar do latim ou não entender sua importância, não compreender seu significado no rito?

Ora, os menos esclarecidos estão saindo da Igreja por falta de formação. Por não entenderem o simbolismo litúrgico. E por causa disso, então, vamos acabar com o simbolismo, só porque eles não entendem?

Então, se muitos não entendem as letras, vamos fazer o que? Acabar com o alfabeto? Pelo contrário, vamos alfabetizá-los!

Aos que não entendem a doutrina, vamos explicá-la. Aos que não entendem os símbolos, vamos ensinar a lê-los. Em vez de acabar com o latim, vamos mostrar a importância!

Enfim, o maior uso do latim desperta nas pessoas mais reverência, mais entendimento do que realmente seja a Santa Missa, mais respeito e amor pela Eucaristia.

Cabe lembrar que quando falamos “Missa em latim” não estamos nos referindo necessariamente à chamada “Missa tridentina”, o rito tradicional, forma extraordinária do rito romano, que utiliza o Missal de São Pio V. Não. Também a “Missa nova”, o rito moderno, forma ordinária do rito romano, segundo o Missal de Paulo VI, a mesma que utilizamos na maioria de nossas igrejas, pode ser feita em latim. Na verdade, o normal é que tivéssemos uma Missa em latim no rito moderno ao menos semanalmente em todas as paróquias.

Vejam mais sobre o latim na “Missa nova” em:

http://www.veritatis.com.br/article/4213/

Locais de Missa Tridentina


Santos
Capela de Nª. Srª. do Desterro, no Mosteiro de São Bento de Santos (Museu de Arte Sacra de Santos)
Endereço: Rua Santa Joana D’Arc nº 795, subida do morro de São Bento, centro
Horários de Missa: todos os domingos às 15:30 hs
São Bernado do Campo
Capela de Nossa Senhora de Fátima
Endereço: Rua Déa Fongaro, 77, Rudge Ramos
Horários de Missa: 1º e 3º Sábados às 19h30
São Paulo
Mosteiro de São Bento
Endereço: Largo de São Bento, s/no. - Centro
Horários de Missa: todos os domingos, às 18:30hs
Contato: mosteiro@mosteiro.org.br
Site: http://www.mosteiro.org.br/menu.htm
Paróquia São Francisco e Santo Estêvão
Endereço: Rua Mário Maia, 54 - Jardim Maria Virgínia
Horários de Missa: Todo quarto domingo do mês às 17h
Responsáveis: Padre Alessandro Carvalho

Paróquia de São Filipe Neri
Endereço: Av. São Lucas, 279 - Parque São Lucas
Horários de Missa: quartas-feiras, às 19hs; sextas-feiras, às 15hs; sábados, às 8:00hs e domingos, às 16:30hs. Santa Missa de Natal,e as do dia 31 e 1º, serão as 16:30.
Contato: (11) 6211-6817
Mais Informações: Ensaio do coral de Canto Gregoriano no fim das Missas de sábado, aproximadamente às 10:30hs.
Capela de Santa Luzia e Menino Jesus de Praga
Endereço: Rua Tabatingüera, 104, Centro (ao lado da Catedral da Sé).
(próxima à uma das saídas do metrô Sé; entrar pela Av. Washington Luis (23 de Maio): depois na saída da J. Mendes)
Contato: (11) 3104-8032
Horários de Missa: Domingos: às 11:00h e às 16:30h (Canto Gregoriano) Confissões antes e depois das missas; 1ª Sexta-feira do mês: 12:00hs; de segunda-feira a sexta-feira às 10h; Sábados: às 12:00h;
Capela Beato Padre Anchieta
Endereço: Rua Professor Frontino Guimarães, 91 - Vila Mariana - O priorado na rua Rua Maurício Francisco Klabin 223 está em obras.
Horários de Missa: Domingo às 10:00, sábado às 18:00, de segunda-feira a sexta-feira às 19:00h
Contato: (11) 3462 6223/ (11) 7443-1376
Responsáveis: Padre Daniel Maret, FSSPX (Prior), Padre Alejandro Rivero, FSSPX e Padre Anibal Götte, FSSPX
Site: http://www.fsspx-brasil.com.br
Igreja Nossa Senhora da Boa Morte
Endereço: Rua do Carmo - Sé
Horários de Missa: 2º e 4º sábado do mês às 15:00h
Contato: (11) 3462 6223/ (11) 7443-1376
Responsáveis: Padre Jonas
Paróquia Rainha Santa Isabel de Portugal
Endereço: Rua Artur Nascimento Júnior, 95 (ao lado do Autódromo de Interlagos)
Horários de Missa: Domingo no período vespertino a combinar antecipadamente com o padre.
Contato: (11) 5666-2368 / (11) 5660-6897
Responsáveis: Padre Renato da Silva Leite Filho
Taboão da Serra

Paróquia Santa Ana
Endereço: Rua Graziela de Azevedo- Jd. Panorama
Horários da Missa: Santa Missa aos Primeiros Sábados às 20H
Contato: irbento.pf@hotmail.com
Responsável : Padre Cesar Silva Rossi e Ir. Bento
Última atualização (Qua, 25 de Agosto de 2010 12:33)

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